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Novos domínios

O Impublicável nasceu blog secreto, ninguém sabia dele. Com o tempo, alguns amigos foram aparecendo e gostando, muitos vieram uma vez para nunca mais, e soube de alguns que leram tudo. De vez em quando, vejo as notificações de leitura e revisito meus textos. Em geral, parece que escreveram por mim, eu gosto do que leio, me emociono e até morro de rir.

Este blog foi feito exclusivamente para eu me expressar e curar. Daquele motivo original eu me curei, tô nova, vida normal, dieta liberada. Agora é hora de mudar o contexto, eventualmente ter alguma utilidade e encontrar uma nova razão que me permita dar vazão a novas expressões.

Em breve, anunciarei aqui o novo projeto, que não será secreto, mas que continuará impublicável, claro.

A partir de agora, vou tornar o blog indisponível para leitura, porque vou recategorizar todos os textos, eliminar o que for datado e preparar tudo para o novo site. Quando tudo estiver pronto, avisarei aqui sobre o novo endereço.

Ele sempre me incentivou a ser o melhor possível. Nunca quis que eu fosse a primeira da turma, nem que tirasse sempre 10. Quando eu tirava 9, tinha que escutar um pequeno sermão sobre isso ser ótimo, mas que bastava 8, 7, e que eu não deveria ambicionar sempre o 9 ou o 10, para não me decepcionar no dia que tirasse notas menores e igualmente dignas. Fazia isso com uma voz doce, a melhor que ele poderia produzir em seu timbre eternamente grave e forte. E sua voz era como um abraço, que ele gostava de concretizar no abraço propriamente dito, de um jeito forte, apertado e grave.

Ele sempre me capacitou, me dando todas as condições para crescer com confiança em mim mesma e remar meu barco com destreza. Eu era pequena e sabia que podia, que o mundo estava aos meus pés, era só eu querer. Profundo admirador das mulheres, só teve filhas, não filhos, um golpe derradeiro e definitivo no machismo cultural tão típico de sua geração. Justo ele, desde muito cedo, me deu as maiores lições de feminismo e poder feminino. Por causa dele, eu hoje não dependo nem emocional nem financeiramente de ninguém. Sou livre para ser quem eu quiser. “Cultura nem homem nem governo nenhum nunca vai tirar de você, minha filha”, dizia ele em sua incansável lavagem cerebral de incentivo ao estudo. Justo ele, que não tinha podido estudar, fazia questão de nos ver lendo, comprava livros e revistas pra mim e quase morreu de tanto orgulho quando eu comecei a ler em outro idioma, ora veja você… Quantas vezes não o flagrei chorando no escuro, de tanta emoção por estar proporcionando estudo, comida e um teto pra nós, pelo menos foi o que ele me contou anos depois, que chorava emocionado diante de tamanha responsabilidade, enquanto as suas maiores joias dormiam silenciosas no quarto. Com a faculdade e esse outro idioma, abri mais ainda meus horizontes, fiz disso minha profissão e honrei cada centavo do que ele gastou comigo. Não fico doente e ele jura que é porque comemos direito durante o período em que ele morou com a gente. Deve ter razão.

Eu vivi para aproveitar de perto seus últimos segundos de lucidez. Estive com ele em todos os momentos nos últimos anos e vi surgir à minha frente um ser humano que reconheceu todas as suas falhas, uma por uma, num exercício de muita coragem. Ele também estava muito ciente de suas conquistas e suas realizações, especialmente com as filhas. Sou e fui a pessoa mais feliz do mundo porque pude dizer a ele que meu orgulho por ele não tinha tamanho e que fazia questão de colocar em prática tudo de bom que ele me ensinou, recriando, como uma cópia xerox, todas as suas atitudes, que eu observei embevecida e intrigada por tantos anos, por toda a vida. Não conheço ninguém tão sensato quanto o meu pai, nem tão delicado, nem tão observador ou meigo. É um urso polar, um brutamontes de voz forte, alta e eloquente. Um urso que me ensinou a apreciar a bênção luminosa da Lua derramada no meio da noite, a suavidade e a simplicidade da música brasileira, a delicadeza de um olhar. Foi esse “grosseirão” que me ensinou a observar a minha própria postura, quando eu não conseguia andar em linha reta. Ele me ensinou a ser a última a chegar a uma festa e a primeira a sair, a planejar tudo com antecedência e pé no chão, a não tripudiar em cima de ninguém, a esconder o pouco que se tem para não afrontar a quem não tem, a deixar o bobo falar primeiro, para ele se enrolar e aí você enrolá-lo em suas próprias palavras. Esse é o meu pai. São inúmeras as lições de humildade e sensibilidade que esse cara me deu. Com ele aprendi também a ser especial e a jamais usar disso para me sobrepor a ninguém. Um cara que veio na família errada, na cidade errada, que pensava muito além da mesquinharia local. Era para ter nascido rei e conseguiu exercer a majestade ao seu jeito. Para mim, ele foi grande, grandioso, um exemplo positivo, e também negativo, memorável. Não aprovo todas as suas atitudes, temos personalidades diferentes, mas escolhi agir como ele, quando isso faz sentido, é o certo e tem a sua lógica. Não conheço ninguém que tenha feito tanta questão de vestir uma carapaça de mau, feio e grosso, paradoxo que tive o prazer de desvendar numa de nossas últimas conversas.

“Eu tinha 3 filhas mulheres para criar. Tinha que fazer a pior cara possível. Não poderia admitir que alguém confundisse a minha simpatia com alguma liberdade em relação a vocês. Queria mais é que todos tivessem medo de mim. Não tem importância. Eu tinha que sacrificar isso para gerar uma redoma de proteção sobre vocês. E funcionou.”

Um jeito peculiar de agir, pelo qual eu tenho um profundo respeito. Admirável e eficaz sua renúncia, um sacrifício consciente a um intento de grande nobreza. Ele está vivo e não se cansa de expressar o orgulho pungente que tem das filhas, o quanto reconhece nosso caráter e nossos valores. Felizmente isso o AVC não tirou. Nem nunca nada vai me tirar a vontade de voltar a revê-lo, a cuidar dele no muito que ele está precisando no momento, para, quem sabe, aproveitar o que mais ele puder me ensinar. Faço todas as vontades dele e estou sempre atenta não só às necessidades, mas também aos mimos, que já é a hora de ele receber algum paparico nessa vida. Como ele próprio me diria, se estivesse no meu lugar, eu não faço mais do que a minha obrigação. Não me canso de repetir para ele que é um imenso privilégio cuidar dele agora e sempre.

Ontem o remédio voltou a trazê-lo de volta a sua melhor fase. Hoje fui lá fazer a barba dele, cortar e lixar unha, limpar orelha, levar bolo e Cebion, essas coisas. Aí antes do dia de hoje acabar, minha irmã me manda por email essa animação que resume tão bem o tanto que meu pai me capacitou emocionalmente, na metáfora do barquinho.

La vanidad, la Daniela

Todo mundo tem uma foto assim tirada no espelho, fruto de um umbiguismo exacerbado, aquela ânsia de registrar o momento em que você tem certeza de que aparecerá alguém com um canhão de luz e te pedirá um autógrafo. Seguranças surgirão do nada e uma multidão gritará o seu nome e implorará a você por um sorriso.

Essa foto foi tirada às 7 da noite do dia 7 de maio de 2012, no hotel em Santiago, onde passamos nossas férias. Eu tinha colocado meu sono em dia e estava me sentindo absolutamente feliz e relaxada, doida para flanar pelo mundo sem rumo e deixando desnorteados todos à minha volta. O clima frio costuma fazer muito bem para a minha pele e pro meu cabelo. Eu tinha feito uma maquiagem esfumada e matadora, usando as mil camadas de proteção e preparação da pele, como manda o figurino. Todos produtos profissionais que duraram o dia inteiro, sem precisar de retoque.

É uma vez em cada milênio que eu me sinto assim, gorgeous, então, me deixa!

Controle

A fúria sobrenatural não desaparece totalmente quando é expressa e nada pode conter a avalanche quando ela chega. A preferência é pelos pequenos, gigantes diante da covardia voraz. A sede sibila na saliva e o rosto rasteja sorrateiro, furioso, amedrontado e feroz. O que não se pode resolver vira um calombo de horror que entala na garganta e se mistura às vozes, que ardem quietas e já não podem mais se calar.

A ilusão voluntária de poder transforma a falta no gozo. O mesquinho exalta-se na mesquinharia. O sujo celebra o que não se pode nominar.

Insensatos atos de incontroláveis vícios vis.

Para os piores erros, só mesmo um perdão irracional. Nada pode ser mais cruel do que o amor incondicional voltado para alguém que não merece. Aí está a sua punição, sua culpa e seu castigo.

Quem sabe um exílio no ontem pra fugir do que não se pode confessar. Um exílio bem longe, gelado e inóspito, para que a beleza eloquente enterre para sempre o seu oposto, como que para provar um ponto de vista soberano e irrefutável: o que você fez foi muito errado. E que não se dê uma única palavra mais sobre o assunto. Por piedade.

Ao fundo, a montanha que se chama La Paloma, na Cordilheira dos Andes.

Foto minha, de 9/05/2012.

Luto

Como alguém pode estar extremamente ocupada e entediada ao mesmo tempo? Por que as tarefas parecem não ter a menor importância exceto quando atrasadas? A pessoa pode estar completamente cheia de vazio, que é quando o horror enche a ponto de faltar espaço e aí fica tudo vazio de espaço? Quando a dor aperta, deprime-se o medo e suprime-se a alegria, até sobrar um calendário cuja data está errada há muito tempo. É o desajuste, o atraso, a perda, o próximo suspiro que não vem, porque até para isso é preciso ter fôlego.

Não tenho mais vontade de escrever nem de falar. E, ainda assim, vim aqui no limite das forças para dizer que perdi a vontade. Já estava difícil antes de tudo acontecer. Agora tenho um acúmulo de problemas, uma enorme frustração, uma pilha interminável de roupas para dobrar, as contas aparecendo, a vida passando e o gosto ruim na boca virando rotina.

A vida se dá em ciclos que se alternam, nada dura tanto e tudo se transforma o tempo todo. E eu estou exausta desse ciclo ruim. Minha expressão facial está pesada, faço um esforço muito grande para andar, conviver, resistir. Minha única vontade é de dormir o tempo inteiro. Ainda assim, tenho dormido muito pouco.

Escrever é expressar, jogar a pressão para fora, explicitar para entender. O que você chama de desabafar. Tenho todos os recursos para sair disso, sei exatamente como me motivar, retomar o ritmo, cuidar da vida e resolver a morbidez do cansaço. Mas não quero fazer nada disso, porque a tristeza está absolutamente insuportável. Funda como um oceano, escura como o céu e aparentemente infinita, numa sucessão de tolices trágicas e cafonas. Tenho a impressão de que algo bom vai acontecer. Tem que acontecer. Não é possível que não aconteça!

Todo mundo parece clamar pelo próprio tempo para digerir os eventos da vida. Eu tenho o raciocínio rapidíssimo, voltado para a eficiência dos processos, e nunca me dei esse tempo. A experiência de morte abala as estruturas cerebrais, afeta as moléculas do corpo, tudo vibra diferente. Como se eu já não estivesse insatisfeita o suficiente antes.

Meu pai teve um acidente vascular encefálico, ficou cego e no momento enfrenta uma demência senil, decorrente da hipertensão que causou isso tudo. Está vivo, mas morreu para o que era. Meu pai era meu maior amigo, um homem admirável, incompreendido em todas as suas atitudes por uma maioria superficial e preguiçosa. Eu quis enxergá-lo e agora convivo com o que sobrou: um corpo fraco, decadente, envelhecido, machucado e que simplesmente não obedece a nenhum comando sensato ao qual estamos todos acostumados. As mínimas tarefas do dia a dia são excruciantes: entrar no carro, caminhar em linha reta, abrir a boca para comer, beber água, manter-se de pé, levantar a cabeça, lembrar nomes, datas. De vez em quando, consigo reconhecer alguns dos padrões dele de antigamente — sendo “antigamente” apenas 4 meses atrás. Quando isso acontece, é uma festa, passo até vergonha, paro quem está passando do lado e mostro: “Olha! Vem ver!! Agora é ele!!” Uma tentativa de congelar o instante para conviver com aquela pessoa que está ali em algum lugar, eu sei que está! Como precisa de cuidados em tempo integral e não temos como fazer isso sem um enorme prejuízo físico, financeiro e emocional, ele vive em uma clínica geriátrica perto da minha casa. Lá o relógio está flagrantemente sempre parado e marca uma hora qualquer, porque já não importa mais.

Fracassaram todas as minhas tentativas de usar o intelecto para compreender o que está acontecendo. Não entendo como uma pessoa pode desaparecer, implodir, soterrar-se irremediavelmente de um minuto para o outro. Isso é o que me deixa mais irritada: não há razão nem motivo. Fomos arrastados evento afora, como se o derrame tivesse nos derramado a todos, as células, os órgãos e o sangue espalhados pelos cantos, a mente incapaz de coordenar a operação de se reagrupar, paralisada em terror.

Esse é meu assunto monotemático do momento. Toda a minha vida está em suspenso até que eu consiga racionalizar, me reunir de volta, levantar e andar. Já chorei exageradamente, em horror. De vez em quando ainda choro, mesmo sabendo que não dá mais pra chorar só um pouquinho, liberar a tensão, enxugar as lágrimas e voltar à vida. Bons tempos esses… A irreversibilidade dos fatos é cruel. Grita em mim a expectativa pelo derradeiro momento, em que tudo voltará à serenidade do que não se pode modificar.

Enquanto isso, só me resta andar com ele de mãos dadas quando o corpo dele aguenta, acompanhando seus passos hesitantes, cumprindo uma trajetória sempre ilógica, atender-lhe as vontades, servir-lhe em todas as necessidades e devolver com amor o amor que eu recebi dele a vida inteira em quantidade suficiente para distribuir. Pensando bem, tá pequeno o perrengue, pai: ainda tem força aqui pra muito mais!

Recapitulando pra não esquecer

E toda hora me dá uma vontade irresistível de ligar pro meu pai pra contar pra ele o que tá acontecendo com ele. Meu melhor amigo, meu único amigo, aquele que jamais irá embora, o que me entende e nem perdoa, porque nunca se magoa.

“Minha filha, pega a coisa que você mais ama no mundo, aquela que te dá a maior felicidade. Pode ser algo que você nem tem ainda, mas quer muito. Pode ser algum sonho ou ideia. Pegou? Pois multiplica por um milhão que não chega nem aos pés do que é o amor por um filho. É uma coisa maravilhosa demais!”

O meu pai tá vivo e continua o mesmo na minha memória. É o corpo dele que está doente, se recuperando no CTI. Ele tá amarrado no leito, porque toda hora ameaça de ir embora. Forte, muito forte, está dando um trabalho imenso para a equipe de enfermagem que, experiente, sabe que não é nada pessoal e faz de tudo pra ele ter, além do tratamento, algum conforto, dignidade, remédios, alimentos e higiene. Eles cuidam do corpo dele e eu fico aqui cuidando da memória, tentando me lembrar dos conselhos que ele me daria se estivesse aqui. Estou desobedecendo tudo, claro. Não consigo me alimentar direito, trabalhar dentro de uma lógica, não chorar e não me desesperar.

“Filha, preste atenção no que o papai vai falar: o que não tem remédio remediado está! Esquece do teu pai, cuide de você, vai se divertir, pare de trabalhar um pouco, esfrie a cabeça. Seu pai é o cara mais sortudo do mundo, por tudo que ele já passou e pelos filhos maravilhosos que tem. Consegui criar vocês, dar alimentação de qualidade, você até fala inglês! Filhinha, tô aqui! Não se esquece disso nunca!”

Era assim que ele sempre se despedia de mim. Daria tudo pra ouvir de novo essa ladainha que se estendia por horas e horas, repetida à exaustão ao longo de anos. Toda vez que eu tinha um problema, ele vinha me dar força dessa maneira: me dizendo que eu sou capaz. Mais do que me dar todas as condições de crescer, ele foi meu apoio emocional, a mão forte que me segurou no meio da arrebentação. Bebi muita água, mas nunca corri perigo de me afogar porque ele estava aqui comigo, com a palavra sensata certa na hora certa, reverberando a lavagem cerebral capacitante e poderosa no meu ouvido. Tão repetitivo e incansável que, danado, conseguiu impregnar meu coração e fazer de mim uma replicante leal de sua sabedoria.

Sou muito medrosa e insegura. Quando demonstro alguma coragem nessa vida, é por causa dele. Há uma semana, no dia em que eu estava mais sem esperança no hospital, ele conseguiu me passar a mesma firmeza apertando a minha mão, como se nada de ruim estivesse acontecendo.

Pai, a força que você me deu é toda tua de volta. Fica firme que eu te levo no colo, como você já me levou tantas e tantas e tantas vezes. Com a tua mão me ajudando, nada nos fará mal, pode ser a onda do tamanho que for. Pai, tô aqui, não se esquece disso nunca!

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